Era uma vez...mais uma vez

O que faz de um filme um clássico? Mais ainda, o que torna uma história tão inesquecível a ponto da gente sempre ter como referência? Essas perguntas me acompanharam por boa parte do início da minha vida acadêmica, principalmente naqueles momentos em que escrevia um artigo, me aventurava em uma monografia, ou resolvia pesquisar a fundo algo. Nesse caminho, fui percebendo que clássicos se tornam clássicos por inúmeros motivos, mas talvez o principal deles seja a universalidade e humanidade intrínsecas em suas narrativas
Histórias que tem uma ligação com quem somos como humanos e nos constituem como seres capazes de amar, odiar, se apaixonar, ter coragem e enfrentar barreiras. E de histórias assim, a Disney tem de sobra, sendo uma das mais recentes a versão em animação de 1991, de A Bela e a Fera.

Idade, como vocês já devem suspeitar, não tem exatamente a ver diretamente com a ideia de clássico, embora muita gente confunda uma coisa com a outra. Afinal, 26 anos nas costas é um tempo considerável, mas não é tanto tempo assim, principalmente se compararmos com outros tantos clássicos. No entanto, A Bela e a Fera de 91 conquistou esse espaço, sendo, inclusive um dos únicos filmes de animação a concorrer ao Oscar de Melhor Filme. 
Mas então, você deve estar se perguntando, o que esperar do filme live action que invadiu as telas de cinema nesse final de semana, já que a animação foi tão incrível assim?
Para começo de conversa, acho interessante ressaltar que não é de hoje que a Disney tem feito o movimento de transformar seus clássicos de animação em versões live action, vide Malévola, Cinderela, Mogli, e os projetos que ela já deu confirmação de que serão realizados, como Mulan, Aladin, O Rei Leão, entre outros (veja esse vídeo do Imaginago e fique por dentro). Segundamente, também é relevante dizer, que essas versões em live action têm trazido aspectos novos e interessantes para as histórias já consagradas, fosse com a sofrível Malévola, que veio contar a história d'A Bela Adormecida sob a ótica da vilã, fosse com Cinderela, que acertou a mão lindamente na hora de contar um pouco mais sobre o príncipe (que na animação mal falava alguma coisa). E agora, somos levados a um protagonismo digno de ambos Belle (Emma Watson) e Beast (Dan Stevens), em que sabemos um pouco mais sobre o passado desse homem torturado, porém cabeça dura, e sua maldição.

Sempre me perguntei também, porque os personagens masculinos dos filmes das princesas acabavam sendo esquecidos, até Aladim poucos desses "príncipes" falavam algo, se quer tinham uma evolução de personalidade. A Bela e a Fera era o único que a Fera ia evoluindo, mas mesmo assim, não era suficiente.
Não na minha opinião.
E dessa vez foi realmente marcante ver como esse personagem foi se transformando, evoluindo e se construindo para nós, com calma e sua verdadeira natureza vai aflorando, conforme Belle se aproxima e vai dando espaço para se deixar envolver, não necessariamente romanticamente, mas pessoalmente, por esse ser privilegiado financeiramente, de humor interessante e que está disposto a compartilhar com ela conhecimento, uma biblioteca, uma viagem mágica e o sonho de encontrar o seu lugar no mundo.
Digna de uma versão contemporânea (mesmo que ambientada no final do século XVIII), A Bela a Fera fala de questões como a homossexualidade (é sério isso), feminismo e o respeito pelo diferente, mesmo que nenhuma dessas menções sejam panfletárias e tomem todo o espaço da trama. Na verdade, é interessante como a escolha de trabalhar com tudo isso com naturalidade foi feita. 

Os enredos ganham tempo para se desenvolver mais, de modo que compreendemos porque a vila é retrógrada, como se dá o fascínio de Lefou (Josh Gad) por Gaston (Luke Evans) e porque diabos o Gaston é tão freneticamente idolatrado naquele lugar. Os adorados objetos vivos do castelo foram digitalmente construídos com lindeza e entre um Lumière (Ewan McGregor) apaixonante, uma Sra. Potts (Emma Thompson) mãezona e um elegante Cogsworth (Ian McKellen), ficamos envolvidos com seus dramas e é impossível não entender como Belle resolve ficar e ajudá-los.
Sobre o elenco, realmente eles dão um show a parte! A história ganha pulso com uma Emma Watson que personifica os valores de Belle, dando ênfase à sua energia, inteligência, determinação e coragem, enquanto Luke entrega um Gaston enervante e bruto, machista até o último fio do cabelo. 
Ademais, o filme segue a mesma linha de figurinos lindos, mas mais ligados às questões históricas, assim como fez em Cinderela, da mesma forma que preserva cenas com uma fotografia idêntica à animação. Falando nisso, as músicas são uma mistura da versão da Broadway, com canções inéditas, dando ao filme um ritmo próprio, mesmo que em conexão direta com as expectativas de fãs e à metasimbologia, que eu falei mais sobre aqui.
De clássico para clássico, A Bela e a Fera cumpre o que se propõe e vai além, traçando um caminho para resgatar um passado (não tão distante), enquanto lança-se em busca de se tornar uma referência futura, dessas que a gente lembra, inevitavelmente. 
Bravo! 

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