Tempo é dinheiro

Com uma brilhante adaptação para o cinema, The Big Short (A Grande Aposta) é um dos mais completos filmes da temporada de Oscar. Vem ver o que temos a dizer sobre:

Está certo que algumas pessoas não entendem muito bem o que eu quero dizer, quando falo que determinado filme é offbeat. Então quero aproveitar o início desse review, para tentar explicar, uma vez que o ritmo desse filme, é uma das suas principais características. Offbeat é um filme que brinca com o tempo das narrativas tradicionais, sejam elas comédias, dramas, sci-fi, musicais e por aí vai. Um filme offbeat, como numa tradução bem ao pé da letra sugere, é um filme 'fora de batida'. 
Agora você pode estar se perguntando, "mas aninha, o que é a batida de um filme?". Bom, a batida, ou ritmo do filme, é como as cenas, os enquadramentos e os acontecimentos vão se desenrolando. Num ritmo tradicional, os filmes acontecem em termos de causa e consequência, em uma série de percursos inspirados nos romances literários. Ou seja: apresenta-se o lugar em que eles estão inseridos, apresentam-se os personagens, apresentam-se os conflitos, os conflitos chegam a um clímax e os conflitos se resolvem. Quando um filme subverte essa fórmula, seja através do roteiro, da montagem ou mesmo ao tensionar estilos e gêneros (500 dias com ela, por exemplo, que está em algum lugar entre a comédia romântica, a comédia e o drama), ele pode ser chamado de offbeat. O grande detalhe, no entanto, é que essa subversão precisa mexer no movimento do filme, para que seja, verdadeiramente, "fora de batida".
Mas por que eu fui buscar tudo isso nesse post?
Porque fazia tempo que eu não me deparava com um filme que, em sua constituição inteira é offbeat.
Desde a forma como o filme se inicia, até como apresenta os personagens e mesmo a constante impressão de que as coisas demoram séculos para acontecer. Todos esses elementos convergem para que fiquemos de frente com um longa completo e repleto de pontos positivos.


O primeiro deles é, definitivamente, o roteiro! Baseado no livro homônimo de Michael Lewis, A grande Aposta mostra como um grupo de pessoas, impulsionadas de diferentes passados, mas com a simples razão de ganhar dinheiro; passam a se envolver numa compra de investimentos de um fundo financeiro, que aposta no colapso do sistema imobiliário norte-americano, que em 2008 nós acompanhamos como sendo a Crise do Subprime. 
A forma como os eventos e os personagens vão se encaixando é realmente de modo primoroso, uma vez que todos eles estão ligados ao mercado financeiro, porém eles são alheios ao grande idealizador do caso, Michael Burry (Christian Bale), que observava a movimentação financeira do sistema imobiliário desde 2005, até perceber que se a inadplência chegar à 8%, vai haver uma crise do sistema imobiliário. 
Bom, parece meio chato, né? Só que, para que o roteiro não ficasse só jargões financeiros e blá blá blás econômicos, são utilizadas algumas ferramentas para diminuir o peso dessas características, como é o caso da quebra da quarta parede, ou quando um personagem fala diretamente para a câmera e/ou se dirige ao espectador. Além disso, eles fazem questão de colocar um tom documental nas falas de Jared Vennett (Ryan Gosling), o mesmo que quebra a quarta parede, de modo que a sua narração é didática e bastante pertinente com o todo. Principalmente com as inserções de Margot Robbie, Anthony Bourdain, Richard Thaler e Selena Gomez. 

E como encaixa tudo isso? Bom, a edição do filme é bastante complexa e mostra como essa ferramenta pode ser usada para ditar o desenho de uma história. A montagem também usa inserções de músicas, vídeos, fotos e falas soltas, para indicar a passagem do tempo, bem como simbolizar cenas do passado de cada um dos personagens. Tudo de um jeito mais solto, mesmo que elas não sirvam sozinhas, para identificarmos o momento exato em que aquele episódio da narrativa se desenrola.
Em termos narrativos, a moral, ética e bondade inata dos seres humanos são colocadas em cheque. Seja causada pela visão de uma oportunidade de ouro, seja por pensar que os atingidos serão eles. O indefinido e meramente complementar pronome sem rosto individual. Mesmo assim, a parte que seria relativa a desenvolver os personagens como seres humanos, além de ávidos Wall Street Men deixou a desejar. Talvez porque eles tenham se focado nos acontecimentos, muito mais do que construir camadas para os espertinhos da bolha.

Pitacos: De modo geral, o filme funciona de forma coesa em toda a sua complexidade, com ótimos atores, excelente roteiro, edição muito interessante e, claro, uma história próxima dos norte-americanos. Elementos que a Academia costuma curtir bastante, logo acho que se trata de um forte concorrente nas categorias de: Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado. 
A Grande aposta concorre nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição.

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