Tal como o Lírio

"Assim, tu sabes porque eu acho que o Eddie é um puta ator, não sabe?", me perguntou Augusto, um dos meus pitaqueiros favoritos nas horas de falar sobre Oscar, cinema e cultura pop geral. Eu, que não sabia, perguntei o motivo. Ele: "Porque ele interpreta com a boca."
E foi assim que a nossa conversa sobre The Danish Girl (A Garota Dinamarquesa) começou e nossa, como ele tem razão sobre Eddie.

Bom, não preciso dizer que essa conversa foi bastante complexa e intensa de ambas as partes. Tanto porque nós dois tivemos um feedback positivo em relação ao filme, quanto pelo fato de que ambos concordamos que é um filme bem melhor que Carol. Isso porque no filme, além de Redmayne, tem Alicia Vikander, uma entidade da natureza! Força arrebatadora, que compele a gente a se apaixonar por ela, por Eddie, pela atmosfera e pelo filme, de modo geral. Quase consigo dizer que Eddie foi ofuscado por sua coadjuvante, mas não consigo totalmente, dada a complexidade dessa história e o peso que Einar/Lily carrega.
Já que é baseada em fatos, eu imagino que para um ator é ainda mais necessário passar a verdade que existia naquele ser, algo que não poderia ser dispensado, ainda mais como o caso de Lili, uma mulher aprisionada em um corpo masculino e tendo que viver sob o rótulo de pervertido, apenas porque não se sentia plena. Não se sentia completa. O mérito de ter conseguido passar isso pra gente é de Eddie, completamente, que não só consegue explorar uma imensidão de sentimentos, como nos convence do seu desconforto físico. Principalmente pela boca.

Mas vamos lá, sobre o que se trata o filme? A garota dinamarquesa conta a história real de Lili Elbe, ou Einar Wegener (Eddie Redmayne) e sua esposa, Gerta Wegener (Alicia Vikander). Ambos pintores, cada um em sua maestria própria, eles vivem um vida de amor verdadeiro, companheirismo e força, de modo que mesmo a frente do florescimento do ímpeto feminino de Einar, eles permanecem juntos, até a decisão final de Einar, de se tornar Lili completamente. Sim, é um filme sobre mudança de sexo. Mais do que isso: é um filme sobre a primeira mudança de sexo realizada na história.
Mais ainda! É um filme sobre encontrar a si mesmo e ter a coragem de sê-lo. O que, para esta que vos fala, é o maior trunfo.
Ainda sobre os personagens e seus atores, é impossível não ficar irremediavelmente apaixonado pelo amor que Lili e Gerta compartilham, de modo que cada traço do caminho que os dois percorrem é pavimentado com trocas de olhares significativos, toques delicados e uma cumplicidade em toques que, à frente de seu tempo, descrevem o tipo de amor atemporal que no fundo, todos nós buscamos. Muito provavelmente porque foge dos padrões (principalmente os da época em que essa história se desenrolou de verdade, que foi ali pelos anos 20), os dois precisaram se apoiar na certeza de que: "não importasse o que acontecesse, eles continuariam juntos".


Mesmo que os enquadramentos do filme sejam bastante tradicionais, com personagens centralizados, preferência pelo plano médio (onde os atores são filmados da cintura para cima) e uma história sem grandes intervenções modernosas, A Garota Dinamarquesa tem uma estética realmente bela, dando prioridade para um requintado visual, tons pastéis e uma ambientação delicada, principalmente se pensarmos sobre a complexidade desta narrativa. 
Essa ambientação delicada fica ainda mais potente, aliada ao tempo que o ritmo do filme dá para os personagens serem construídos, de modo que nos tornamos íntimos a eles, seus adereços e até mesmo, suas almas. Incrível como é simples e complexo, ao mesmo tempo, sermos englobados tanto assim por um força tão poderosa, mas apresentada pra gente de um jeito tão suave, sendo quase paradoxal como os elementos fílmicos conseguem fazer isso.
Bravo!
Pitacos: A Garota Dinamarquesa é o meu atual favorito nas categorias de Atriz Coadjuvante e Design de Produção. O filme concorre às estatuetas das categorias já citadas e também de Melhor Ator e Melhor Figurino.
Veja a lista completa.

*O filme também faz parte da minha lista de 24 filmes para 2015, do Blogs que Interagem, na categoria Mulheres

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