Verdadeiro ou falso? – A ciência por trás do veneno das Teleguiadas (tracker jacker).

Apresento para vocês a primeira contribuição de Amanda Mota, cafecólatra do Mesa e faladora de Ciência para além do jaleco. Vem ver!

Por Amanda Mota

Quando estava faltando menos de uma semana para a estreia nos cinemas da última parte de Jogos Vorazes - A esperança, tornou-se quase impossível eu não fazer uma maratona dos filmes ou reler todos os livros dessa saga literária que arrebatou fãs no mundo inteiro misturando uma boa dose de realismo, num mundo fantasiado de ficção. Digo isso por que é evidente o uso da narrativa romanesca para criticar a sociedade, seus preconceitos e formas de governo. 
Além dessa clara análise sobre o comportamento humano, pode-se identificar  que, desde o início, a saga abordou uma realidade nua e crua e o final não poderia ser outro senão, um fim digno de vida real, com consequências e sequelas que vão além da vontade do autor de definir tudo como uma grande ilusão de contos de fadas e um “felizes para sempre”.
Nesse novo e último filme da saga, nos deparamos com o uso de uma toxina responsável por distorcer, apagar e criar novas memórias em um dos personagens principais.
Peeta Mellark, conhecido por ser o grande vencedor da 74ª edição dos Jogos Vorazes, é sequestrado pelo presidente Snow e submetido a torturas físicas e psicológicas juntamente com o emprego da técnica de telessequestro, bem descrita no livro como: a utilização de várias doses de um veneno capaz de causar confusão mental, incapacidade de julgar o certo do errado e o que é real do que não é. Existe, também, a participação de um interlocutor que além de relembrar os acontecimentos para o prisioneiro, também adiciona detalhes que não existiam criando assim, uma memória falsa. E é isso que vamos abordar nesse texto. Falaremos, então, de algumas hipóteses que tornam o problema com Peeta, um problema real.

Primeiramente precisamos entender que a memória acontece devido a uma conexão neural mediada pela comunicação entre neurônios, a tão famosa sinapse. A informação, que é obtida por, pelo menos, um dos nossos sentidos é conhecida como memória sensorial. Ela é transmitida pelas sinapses e, a partir disso, existem dois tipos de memória que se seguem: a chamada de Curto Prazo, que basicamente é aquela que te impede de lembrar todos os números da sua agenda telefônica, afinal você não usa todos os números diariamente. E aquela que te faz lembrar do número da sua mãe (afinal mãe é mãe e você vai sempre precisar dela), que é a tão famosa memória de Longo Prazo.
Tudo isso acontece em áreas especificas no cérebro que se ligam e unem as sensações com as informações gerando assim a lembrança. Não ache que é por acaso lembrar de um acontecimento apenas por sentir um cheiro que estava presente naquele momento, como a cheiro de café te lembrando do trabalho ou a música do Michael  Jackson te lembrando do Vídeo Show. Tudo está interligado e é nesse momento de conexão que tudo pode mudar.
Como a grande pesquisadora Elizabeth Loftus conta em entrevista e evidencia em seus vários trabalhos, a memória é algo frágil e que pode ser manipulada. Num estudo específico, a cientista pegou um mesmo vídeo de dois carros em um acidente e mostrou para dois grupos perguntando para cada um deles a mesma coisa, porém com uma palavra diferente: para um grupo ela perguntou em que velocidade esses carros estavam quando se CHOCARAM e em outro grupo ela perguntou em que velocidade esses carros estavam quando eles se TOCARAM. Apenas a troca de palavras induziu o primeiro grupo a considerar uma média de velocidade bem mais alta do que a do segundo grupo. Em outra pesquisa ela entrevistou pessoas que já tinham ido a Disneyland e, no decorrer da conversa sobre essa experiência passada, ela mostrou um panfleto fake da Disney com seus diversos personagens e incluiu o Pernalonga. Na hora em que ela perguntou aos entrevistados quem estava presente a maioria revelou ter visto o Pernalonga e alguns, inclusive, deram detalhes do encontro com o personagem em plena Disneylândia. O que há de errado aí? Esse encontro jamais aconteceu! Afinal de contas, o Pernalonga é um personagem da Warner Bros e, portanto, nunca estaria na Disney. Logo, ela provou ser possível induzir memórias falsas em pessoas apenas mudando a forma como uma pergunta era feita.
Podemos, então, deduzir que é possível sim, o filho do padeiro ter tido a memória manipulada por um interlocutor durante sua “estadia” na capital.

Já para que Peeta adquirisse toda a personalidade esquiva, devemos levar em consideração o transtorno de estresse pós traumático. No qual a pessoa passa por uma situação de risco e acaba associando todos os detalhes dessa lembrança a algo ruim, tendo como principais sintomas:
-A reexperiencia traumática através de pesadelos e lembranças, a qualquer momento, do trauma vivido.
-Em consequência disso há a FUGA. A pessoa busca se esquivar de qualquer detalhe que possa leva-lo a reviver o trauma ou a lembrança do trauma novamente. 
-A hiperexcitabilidade psíquica na qual ocorrem episódios exagerados  arrecadando além de distúrbios psíquicos como : irritabilidade, agressão e hipervigilancia, também distúrbios físicos como os tão famosos ataques de pânico que consistem em transpiração, arritmia cardíaca, falta de ar, entre outros sintomas.
-A diminuição da afetividade: já que o medo se torna constante e a depressão e ansiedade acabam por modular a personalidade da pessoa a tornando distante, inexpressiva, com sentimentos de impotência, desejos de morte e perda da esperança.
Uma vez provada que a indução de memórias falsas é possível e a mudança de personalidade também,  vamos ao quesito: toxina.
Como já vimos, memórias são ligações feitas por neurônios. Essas ligações são mediadas pelas sinapses. Uma das formas de se impedir que as memórias de curto prazo se tornem permanentes ( consolidação da memória) é impedir que as sinapses sejam realizadas. Por isso drogas inibitórias podem fazer um efeito de “apagar a memória”. Isso foi apresentado em um estudo em que mostrou que um roedor que havia aprendido que um barulho é seguido de choque pode esquecer essa associação se for tratado por um inibidor de sinapses.
Já memórias de alguns anos, ou seja, as de longa duração, sofrem reconsolidação quando são revisitadas e numa dessas lembranças novos detalhes podem ser adicionados por um interlocutor em conjunto com uma reprogramação neural através da optogenética, ou como é conhecida, a técnica que utiliza a luz para estudar os circuitos neurais atuando em células específicas. Com isso, pode-se mudar quase que completamente as memórias já consolidadas. Esse experimento foi demonstrado pelo grupo de Susumu Tonegawa que reprogramou a circuitaria de um roedor para que ele se sentisse confortável em ambientes que antes geravam estresse. O contrário também foi comprovado e o roedor acabou ficando mais estressado em ambientes “planejados” para que se comportasse dessa maneira.

Tendo isso como base, podemos inferir que a toxina das teleguiadas (tracker jacker) são capazes de atravessar a barreira hematoencefalica (uma estrutura altamente seletiva que protege o sistema nervoso central). Lá, elas serão capazes de reprogramar as circuitarias neuronais instalando e ativando receptores de luz usando o princípio da optogenética. Quando as áreas responsáveis fossem identificadas pelas lembranças estimuladas (no caso cenas em que Katniss era a protagonista), um estímulo luminoso intenso sobre o indivíduo poderia alterar essa circuitaria causando esquecimento e até a reprogramação neuronal.
Apesar de parecer viável, ainda estamos longe de alcançar esse tipo de tecnologia. No entanto, em um futuro em que roupas pegam fogo e não queimam, uma reprogramação neural seria fichinha.

Fontes:
- minutos psíquicos: https://www.youtube.com/watch?v=OkUGmvQ_Snc
- Nerdologia:  https://www.youtube.com/watch?v=Bj-7axay48w
e https://www.youtube.com/watch?v=0t7atGJH9XM 
- Entrevista com: Elizabeth Loftus : https://www.youtube.com/watch?v=eZlPzSeUDDw
- TED com Elizabeth Loftus: https://www.youtube.com/watch?v=PB2OegI6wvI
- http://www.ic.unicamp.br/~wainer/cursos/906/trabalhos/curto-longo.pdf
- http://www.minhavida.com.br/saude/temas/transtorno-do-estresse-pos-traumatico 
- Roesler et al; Consolidação da memória e estresse pós-traumatico, Rev. Bras. Psiquiatr 25 (Supl I) 25-30, 2003.
-Mendlowicz e Figueira, Diagnóstico do transtorno de estresse pós-traumatico, Rev. Bras. Psiquiatr 25(Supl I) 12-6, 2003.
- Redondo, Roger L., Joshua Kim, Autumn L. Arons, Steve Ramirez, Xu Liu, and Susumu Tonegawa. "Bidirectional switch of the valence associated with a hippocampal contextual memory engram." Nature (2014).




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