Falta

"Eu preciso ir!", disse Olívia, enquanto encarava os olhos de decepção de José, ao passo que ele, decididamente não queria que ela fosse, ou que a despedida continuasse. Ele pensava que poderia, simplesmente beijar aquela boca de novo e pedir por mais três minutos. Mas talvez não devesse. Ela, pensava que queria que ele pedisse aqueles três minutos...

Essa é a tônica do filme (e da série) Latitudes, estrelado por Alice Braga e Daniel de Oliveira. O enredo conta a relação (ou quase isso) de Olívia (Braga) e José (Oliveira). Ambos com carreiras consolidadas: ela como editora de moda e ele como fotógrafo, eles vivem realidades nômades e praticamente sem endereço fixo, ou algo para chamar de casa. Numa dessas andanças eles se encontram e desde aí, mais sete destinos cruzam os caminhos desses andarilhos pós modernos e nós ficamos tão perdidos quanto eles, entre as mais diversas formas de entrar nessa história.
Diversas formas, porque num ineditismo digno de notabilidade, Latitudes é uma história contemporânea (e não só pelo tema de sua narrativa), sendo lançada primeiro no youtube, com oito episódios para a web, divididos nos oito destinos em que os personagens viajam, em seguida a história foi para a TNT, onde condensou os episódios de modo deslinear e intermediário a web e ao filme, a terceira plataforma, que na edição brinca com a linearidade dos destinos, ao mesmo tempo em que, conforme vamos chegando ao fim, os mistura numa edição muito mais sentimental, do que cronológica. 

Sem entregar tudo no filme, as duas versões de série trazem informações novas e pontua detalhes que podem ter passado despercebidos no formato anterior, reafirmando que a edição é a principal ferramenta para construir Latitudes
Além do seu aspecto transmidiático (que é muito apelativo para esta que vos fala) e de edição, os atores constroem personagens complexos através de olhares, sorrisos e toques. A complexidade desses personagens é explorada em círculos viciosos de ações, diálogos intensos e as suas necessidades, inicialmente animalescas e depois humanas. Alice e Daniel são dignos de aplausos, também por segurarem um enredo grande apenas entre eles, uma vez que não são presentes recursos muito maiores que suas vozes, seus corpos e alguns leçois.
Também ressalto a cautela em uso de cenários, de modo que eles viram personagens, principalmente os quartos de hotéis e os, aparentemente, inóquos lugares que dizem muito respeito a que eles estão passando e pensando, especialmente o café em Buenos Aires, a praça em Istambul e a casa em José Ignácio. 

Escrito e dirigido por Filipe Braga, o Latitudes tem um ritmo que pode surpreender aos olhos desavisados daqueles que pensavam encontrar-se frente a uma comédia romântica; isto porque não se trata de uma comédia, muito menos romântica, no sentido tradicional de chick flick. Está muito mais num lugar intermediário de uma offbeat e um drama, se focando em intensos diálogos. A estrutura narrativa do filme lembra muito Antes do Amanhecer e é possível fazer uma relação dos personagens com os do filme citado, mas talvez a diferença primordial (além da forma como a história é contada) esteja no compasso, repleto de falta de tempo, falta de espaço, falta de si, falta de casa.

"Deixa uma janela aberta!", Olívia pede antes de sair e José a encara como se não pudesse mais aguentar aquela situação. "Eu não te conheço", ele diz e nós também não. Nem ela, nem ele, porque as suas respectivas vidas são um total mistério. Temos ideia das suas psiquês, mas somos quase cegos, assim como eles, conforme se envolvem um com o outro, só conduzidos à um final completamente plausível e ansiosos por mais. 
Ainda bem que tem mais!

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