Um reino para chamar de nosso

A cidade é melancólica, mas recheada de cores claras e doces, desenhos engraçadinhos que abrem a imagem. Como protagonistas um casal no começo da adolescência, que por se sentirem solitários resolvem fugir. Este é o o queridinho Moonrise Kingdom, do diretor Wes Anderson.

Certo, se você leu a minha review sobre o filme O Grande Hotel Budapeste deve se lembrar claramente o quanto ressaltei certos aspectos Andersonianos, não é? Fica até complicado para mim falar de Moonrise Kingdom sem relembrar todos esses detalhes de Wes, que são muito mais do que assinaturas, são insígnias de um autor que prima, não só para boas histórias, mas por uma ressignificação de elementos tão enraizados no nosso imaginário da cultura pop cinematográfica (como é caso das cores), que causam estranhamento no filme dele. Sim, porque Wes é melancólico, triste e as vezes quase entediado; mas faz comédias. E são comédias onde tudo é perfeitamente simétrico, com cores delicadas e uma Direção de Arte que prima pela construção de cenários que mais lembram casas de boneca. 

Tudo é lindinho, menos esses personagens, que costumam ter boa índole, mas são 'misteriosamente feios' e ao mesmo tempo com traços infantilizados. São infantilizados, mas tem ímpetos de adultos. Querem ser desbravadores, amarem profundamente e encontrarem o mundo como tal.
Esse é Wes.
Mas calma, você deve estar querendo saber do que se trata o filme, né? Bom, a história gira em torno de Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward), um jovem casal incompreendido pela cidade onde moram e cujo o desaparecimento faz com que a pacata vila vire de cabeça para baixo. Como parece ser uma espécie de marca de Wes, a história é repleta de significantes, com cenas que acontecem fora do enquadramento e ainda tem seus personagens perfeitamente coreografados e capazes de contar quem eles são com um simples olhar.

Interessante pensar em como Anderson gosta de desenhar esses tipos de 'não lugares' em suas obras, em que o fictício e o real se cruzam de modo bastante único e nós somos levados a perceber como aquele lugar é fronteira. Fronteira de ida, de volta, de não volta e de desaparecimento. Outro detalhe bastante significativo neste filme é como esse espaço parece gigantesco perto dos personagens. É um espaço que engole e para fazer isso, Wes costuma centralizá-los em ambientes enormes, semioticamente isso tem diversos apontamentos, para mim, ele continua voltando para a questão da melancolia.
Outro detalhe que é muito significativo na película é como o sumiço de dois outsiders, faz com que os moradores saiam de suas zonas de conforto e até revelam quam são abaixo das suas máscaras. Essa questão dos outsiders é mais e mais relevante, quando percebemos que esses dois, que sempre se sentiram de fora em New England, passam a pertencer um ao outro e a uma terra abandonada e inútil. A Moonrise Kingdom. Esse lugar no não-lugar que é deles e que para os mesmos é onde devem estar. 
E de repente eles nem são tão melancólicos assim. Tudo porque tem um ao outro.


Moonrise Kingdom integra a minha lista de 24 filmes para 2015, proposta pelo Blogs que Interagem, na categoria Aventura.

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