Preto no Branco - Branco no Preto

O filme Que horas ela volta? deu o que falar nas últimas semanas por ter sido o longa metragem escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2016. Eu, que sou dessas que gostam de dar pitaco no que vejo, não poderia deixar de dar o meu pitaco sobre o filme dirigido e escrito por Anna Muylaert.

O primeiro grande detalhe que logo chama atenção aos que são perspicazes o suficiente para pensar sobre o assunto, é que Anna é uma voz um pouco dissonante da tônica do cinema nacional hoje em dia. Não apenas pelo fato dela ser uma mulher, mas é impressionante como a diretora consegue dialogar com duas frentes que, historicamente, se degladiam, que é a do cinema autoral e o cinema de produtor. Anna transita entre as duas formas, usando recursos de uma globo filmes que é aparentemente superficial e que visa apenas o lucro, com a delicadeza e intimismo de contar uma história que traz diversas camadas e momentos.
Que horas ela volta? é, de fato, um retrato de uma situação que é recorrente nos lares brasileiros, onde uma empregada doméstica vive e convive com uma mesma família por anos a fio, a ponto de se tornar membro dessa família, ou pelo menos em tese. A grande tônica da narrativa parece se centralizar na ideia de que os papéis continuam os mesmo. Ela continua recebendo salário, morando no trabalho e sendo a doméstica. O abismo e a égide do "cada um no seu quadrado" ainda existe e esse é um dos tópicos muito bem desenvolvidos pelo filme.

Outra questão contundente é a forma como essa relação, a patrão x empregado, desenvolve em diversos formatos, sendo abordada em mais de uma instância, uma vez que Val, personagem de Casé parece se colocar em segundo plano sempre e, mais do que isso, é cheia de pudores e pré-definições de sim e não, as quais nos perdemos não sabendo se são pré-definições que partem dela, ou se partem de uma sociedade que, lá atrás, era casa grande x senzala.
O fato dela ser uma espécie de mãe para Fabinho (Michel Joelsas), mas nada para a sua filha (Camila Márdila) causa incômodo, mas não estranhamento e esta talvez seja uma das maiores dádivas da obra: conseguir escancarar uma realidade que, de tão usual, quando exposta não chega a ser estranho, muito menos incomum, mas é, definitivamente, uma espécie de cutucão bem enfático.

Regina Casé está incrivel e não parecendo em nada com a sua tentativa de  chacreza praticada no programa Esquenta. Ela tem a sutileza de trazer aspectos complementares e, ao mesmo tempo, ricos para a personagem, que tem inserções cômicas, mas que se estabelece como ordinária e por isso mesmo é incrível.
Camila Márdila, que interpreta Jessica, a filha que se recusa a viver da mesma forma que a mãe, consegue dar à história um tom bastante interessante e ser a voz que critica a tal da falta de estranhamento que falamos, sendo brilhantemente 'resumida' em uma frase: "Eu não acho que sou melhor que ninguém, mas também não me acho pior, não.".
Definitivamente é um filme para prestigiar na grande tela e com toques de Central do Brasil, Santiago e até mesmo Domésticas, Que horas ela volta? é tão brasileiramente universal, que pode, muito bem, ser um favorito do Oscar no próximo ano.

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