Como andar de Bicicleta

Existem poucas coisas, hoje em dia, que ainda conseguem fazer a gente valorizar a sutileza dos gestos e a delicadeza dos sentimentos. Existem ainda, menos obras assim no audiovisual brasileiro contemporâneo que conseguem chegar às grandes salas de exibição, ressaltando histórias construídas de modo meigo e banal ao mesmo tempo. Logo, não poderia deixar de falar do tão querido Hoje que quero voltar sozinho.

Fato é, eu já tinha visto esse filme há um tempo e já tinha até escrito uma crítica sobre o mesmo, mas ao ter a oportunidade de revê-lo, deixei-me levar pela história de Léo e Gabriel como se fosse a primeira vez. E de volta ao 1º momento, na sala escura do cinema, eu me deixei conquistar de novo pela forma como as características desse longa se desdobram em tantas outras, sendo capaz de despertar na gente todas as complexidades de ser adolescente e estar descobrindo quem nós somos (e quem gostaríamos de ser) no mundo.
Hoje eu quero voltar sozinho, é um longa-metragem, dirigido e escrito por Daniel Ribeiro, que também foi o diretor do curta Eu não quero voltar sozinho, com os mesmos personagens e o mesmo enredo, mas que conseguiu ganhar bastante maturidade em sua versão de pouco mais de uma hora e meia. Daniel é responsável por nos trazer para o centro de uma história que, primeiro poderia ter tomado formas de Malhação, mas conseguiu se desvencilhar completamente, e segundo, tocar numa série de assuntos delicados, de modo completamente sutil, sem abrir mão de como tudo aquilo é complexo. Especialmente durante a adolescência.

Veja bem, em nenhum momento pretendo, ou pretendia tocar no fato de ser uma história sobre um amor homossexual, até porque esse parece ser o menor dos detalhes, num mote que realmente trata da descoberta do amor romântico, durante a bagunçada e enrolada fase da adolescência, repleta das suas dúvidas, seus dramas e as suas impressões de que se está naufragando num mar de 'super proteção' e 'falsas liberdades'. Isso porque, sei lá, para mim tudo fica mais interessante pelo fato de nos depararmos o tempo inteiro com uma história que poderia ser igual a tantas outras, sem se perder no marasmo das chanchadas pós-modernas. Na verdade, vale prestar atenção em como os filmes direcionados para o público adolescente conseguem se diferenciar das comédias insistentes no estilo chanchada, vide As melhores coisas do mundoDesenrolaEu não faço a menor ideia do que eu to fazendo com a minha vida, entre outros. Que bom que é um respiro...
Com muitas menções ao clássico da sessão da tarde Meu Primeiro AmorHoje eu quero voltar sozinho me tocou, dessa vez, pela segunda vez, pelo enredo que se sustenta em si mesmo, sem o uso desenfreado de frases feitas, ou o fator pena do menino cego. Opta por eternizar um sujeito momento, na certeza de ser um dos mais importantes da vida, e mais ainda, se permite explorar diversos aspectos desse crescimento, ao mesmo tempo que lida com amizade, independência, família, dúvidas e tudo isso junto, bem ao estilo da vida como ela é.  Como se fosse parte das confusões mais primárias de qualquer ser humano.

A partir de uma trilha sonora tão delicada quanto o filme e marcada por There's too much love, de Belle and SebastianVagalumes Cegos de Cícero e diversas músicas clássicas, conhecemos um casal protagonista que se envolve tão naturalmente, que não há nada a fazer, a não ser aplaudir de pé Ghilherme Lobo e Fábio Audi, que passam pra gente o quanto o enlace dos dois é real e nos envolvem por toda essa sensibilidade, tendo mais certeza ainda, de que precisamos de mais delicadeza e sensibilidade no mundo.
Mesmo assim, acredito que a gente ainda tenha tais características e acredito que seja como andar de bicicleta...a gente não esquece como faz...

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