A incrível novela onde nada acontece

Campeã de críticas positivas, porém não tanto de audiência, a novela Sete Vidas de Lícia Manzo mantém a linha humanista e reflexiva do cotidiano, já vista é muito bem explorada pela mesma autora em A vida da Gente

Sete Vidas é exatamente isso, uma comprida reflexão sobre a família, amigos, liberdades e amores muito próximos da família média brasileira, organizada de forma dialogal para dar ênfase nessas questões e transformar o banal em extraordinário, sem usar de artificialidades ou grandes acontecimentos. 
Sim, porque a novela de Lícia passa a constante impressão de que não acontece nada. De que os grandes momentos ali representados são tão simples e ordinários que poderiam, com o perdão do trocadilho, acontecer na vida da gente. A mãe que, do seu jeito torto e precário ama sua filha; os irmãos extremamente opostos que se degladiam para se entenderem; a mulher muito bem sucedida profissionalmente, que precisa fazer escolhas significativas para ser mãe; entre tantos outros personagens, complexos personagens, que de tão próximos das pessoas que 'conhecemos', faz com que nos identificamos e também nos perdemos em tais semelhanças.
Esses complexos personagens não são apenas identitários para nós, mas são também cheio de nuances, que determinam quem eles são e pelo que serão responsáveis. As cenas, que são firmadas em situações corriqueiras, guardam a ação extraordinária, para dar espaço a reflexao de atitudes, escolhas e momentos, sempre com a noção de que tais escolhas é que são determinantes do que vai acontecer e como vai acontecer; bem parecido com a forma como a nossa vida parece funcionar.

Apesar de se usar de gatilhos ou motes centrais, os personagens de Lícia estão bem longe dos estereótipos da teledramaturgia, isso porque a autora parece optar por montar seu "mundo" em camadas, as quais conhecemos de modo significativo o motivo de elas serem relevantes, realmente entrando em todas as razões que fazem desses personagens indispensáveis para trama e, principalmente, tangíveis para nós que acompanhamos o enredo. 
Talvez por conta desse mundo construído através de camadas, ao final de Sete Vidas é possível ser arrebatado por uma vontade de avaliar nossas próprias camadas, isto porque Lícia tem um texto verdadeiramente poético, onde mistura com sabedoria as conversas banais e corriqueiras, com intensas reflexões sobre hipocrisias, manias e dramas, que de tão pessoais podem ser universais. Particularmente, não tem um dia que eu não veja a novela e que nao me surpreenda com o fato daquilo ter tanto a ver comigo e o fato de não acontecer nada, na verdade, ser capaz de determinar incríveis acontecimentos nas vidas daqueles que se deixam levar pela delicadeza textual de Lícia e sua visão complexa de uma vida. Ou de sete. Ou de muitas.

Se em "Amarga Despedida" fiz questão de dar ênfase em todos os motivos pelos quais Em Família deixou a desejar, nesse texto aproveito para levantar que Lícia talvez seja a verdadeira herdeira de Manoel Carlos, em seus anos áureos, achando eu que supera o mestre, mesmo partindo de um núcleo igual, quando priorizava a família, suas questões internas e seus loops eternos em tentar compreender o ser humano. O ser humano que vive ao seu lado. O ser humano que você é. E é simplesmente ótimo encontrar uma autora que se encaixe no meu desencaixe

Já sentindo saudades...

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