O tempo e o conhecimento

Um filme que, à princípio, dialoga com o Sci-Fi, mas que não perde em nada no seu desenrolar para os grandões da aventura e ação. Lucy é redondo e levanta questões filosóficas, psicológicas e humanas.

Lucy é um ser humano medíocre, que usa menos de 7% da sua capacidade cerebral e não sente qualquer necessidade de ir além disso. Sua capacidade é tão limitada, que influencia até mesmo no seu julgamento, uma vez que se envolve com o patético Richard e cai em uma armadilha que, à princípio deveria se para ele. Desesperada, com medo e tomando todas as suas decisões a partir do que e como se sente, a moça acaba por ser levada ao extremo em diversas situações, quando é agredida, feita de mula de droga e quase violentada sexualmente. Quando se defente do capanga que quer violentá-la, ela é espancada e a droga que carregava em seu ventre estoura, causando uma reação em cadeia, onde cada célula do seu corpo se torna um autônomo ser, ao ponto dela não caber mais em si mesma. Assim como as descobertas que seu cérebro começa a fazer.
Logo Lucy não é mais um ser humano medíocre. De 7% ela passa a usar 15%, 20%, 40%, 60%, 80% e assim, até 100% de sua capacidade cerebral. O que pode dar em desfechos inimaginados e até então, impossível de serem medidos.
Luc Besson, que escreveu e dirigiu o longa, usa de artifícios da ficção científica para explicar como todas essas peças se encaixam, de modo a criar uma história verossímel, mas capaz de levar desavisados ao cinema, em busca de uma sexy Scarlett que se assemelharia à Viúva Negra. Não é o que acontece, então "esteje" avisado. Scarlett neste filme está muito mais ligada à verossimilhança criada por Luc, então prima por uma interpretação levemente bagunçada e existencialista, a qual, quase que friamente, vive alguém que passa por todos os estágios animalescos de sobrevivência, presa, caçadora, até se tornar um ser imaterial.
Imaterial porque a matéria não mais dá conta da mente que engrandece sem limites e não mais aguenta ser diminuída ao corpo. Sim, Lucy não é mais um humano medíocre, ela se torna muito mais do que isso, e para tal, sua condição se altera gradativamente alcançando consciência plena de si, do mundo a sua volta, do funcionamento das coisas e transcende o que se vê, chegando ao tempo, espaço e o inconsciente.
Falando assim, parece um filme extremamente complexo, mas na verdade sua história é bem redonda e as explicações de como as 'habilidades' de Lucy são adquiridas fazem sentido. O foco do filme está na irriquietação e incômodo que ele causa, uma vez que perdidos entre metáforas de nossas ambições, medos, desejos e questões mais primárias, percebemos que, provavelmente, sempre seremos seres medíocres, porque para ser algo há mais, teríamos que superar todas essas amarras que nos fazem matéria. E é aí que tudo faz mais sentido, então se você ainda não viu Lucy, mantennha a mente aberta para se deixar levar pelos questionamentos levantados por Besson e passe a se perguntar todas aquelas coisas que norteiam nosso subconsciente: "quem somos? o que somos? porque somos? o que seremos?"

O final em aberto é uma dica da possível crença de Luc Besson sobre tudo isso: somos indistinguíveis dos animais, a não ser pelo tempo e pelo conhecimento. Eles juntos são imparáveis e podem levar-nos a lugares incríveis e inimagináveis.

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