Sobre crenças e magias

Com um senso de humor bastante apurado, questões de crenças/descrenças, fascínio, magia e a vontade de encontrar um sentido na vida, "Magia ao Luar" pauta, através dos olhos de Woody Allen, uma história primordialmente cética, mas subtamente crente.

Com uma narrativa simples, mas com uma construção de personagens primorosa, conhecemos Stanley (Colin Firth), um mágico que faz diversos shows fantasiado de chinês, enquanto se 'diverte' desmascarando charlatões metidos à médiuns e milagrosos. Sua vida vai bem, tudo num ritmo compassado de rotina e dias iguais aos outros, até que Howard (Simon McBurney), seu amigo de infância clama ter encontrado uma moça com poderes mediúnicos, os quais ele mesmo não encontrou nenhuma indicação do contrário. Completamente cético, Stanley aceita conhecer a moça e assim os caminhos dele e de Sophie (Emma Stone) se encontram.
Não é difícil perceber que a história só poderia caminhar para dois lugares, ou que Stanley encontraria a mentira de Sophie, levando-a a ser taxada de trapaceira; ou que Sophie realmente seria poderosa e provaria ao descrente Stanley que a magia existe. É claro que não vou estragar, para aqueles que querem ver o filme, sobre o caminho seguido por Allen, mas posso dizer, no entanto, que ele brinca seriamente com questões tão humanas e sinceras, que chega a ser levemente desconsertante o quanto você vê pessoas sorrindo e se sente sorrindo em cenas diversas, onde percebemos que nem tudo é preto no branco.
Está certo que, entre muitos diálogos, poucos cenários e um figurino, digamos, simplista demais (não que eu estive procurando pelo "O Grande Gatsby"), o que o filme oferece como carro chefe é uma reflexão apurada sobre algumas das questões mais íntimas do homem, ou de um homem (no caso, Stanley) que usa de sua descrença extrema e rabugice caricata, para ocultar sua verdadeira vontade de crer em algo e, de repente, passar a ver a vida de modo diferente.  

É verdade que essa ideia se maqueia dentro da miméses de um enredo leve e simpático, facilmente confundível com uma comédia romântica à lá "opostos que se atraem"e todas as variações de amores improváveis, mas ganha e cresce ao se "perder" sob a ótica bem característica de Allen, onde o ser humano é a deixa para que suas ambiguidades sejam as verdadeiras estrelas em cena. Bem, elas e Emma Stone, que com seus grandes olhos e astúcia levemente desconfortável (para Stanley) traz uma personagem forte (mesmo que não pareça) o suficiente para nos levar, assim como faz com o seu co-star, para passear e pensar/repensar as magias do mundo.
Falando em magias, esta questão é tratada para além dos ilusionismos e o fantástico, por assim dizer, na verdade para Allen a magia está muito mais enraizada na maneira que se vê o mundo e se vê dentro dele, podendo, até mesmo, entregar-se a possibilidades infinitas e que só precisa, na verdade, de um empurrãozinho para voltar a acreditar, nem que seja só no amor.

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