A última(?) lâmina de sangue

"Esta noite é a noite", pensa o rapaz dirigindo seu carro. Ele parece um cara como outro qualquer. Tem cabelos avermelhados, corpo atlético e um trabalho fixo em Miami. É o especialista em sangue da delegacia e se chama Dexter, mais do que tudo isso, ele é um serial killer e esta noite, ele vai matar alguém.


Dexter é uma série norte-americana, produzida pela Showtime e transmitida (no Brasil) pela FX e pela ID. Baseada na saga de livros homônimos de Jeff Lindsey, a série acompanha a vida de Dexter Morgan, um serial killer que trabalha na polícia de Miami e que, aparentemente, não passa de um "labgeek" (apelido dado aos especialistas forenses). Em meio ao seu dia-a-dia, por vezes conturbado e cheio de assassinatos para investigar, ficamos cientes de que Dexter é um serial killer diferente. Ele tem uma família, tem um código e mantem as aparências. Nós somos meros espectadores de sua mente assassina, porém dúbia, que vê na figura paterna o seu farol e na sua irmã sua sanidade.
Acontece, basicamente, que Dexter desde bebê tem uma relação estreita com a morte. Ele viu sua mãe ser brutalmente assassinada quando tinha apenas três anos e esse episódio o muda completamente, disparando um gatilho que mais a frente seu pai adotivo, Harry percebe. Harry foi o policial que resgatou Dexter do mar de sangue que ele estava após sua mãe ser morta e é quem o ensina um código que permeia sua vida de serial killer durante os anos que se seguem. Dexter só pode matar homicídas e só pode matá-los se tiver provas que sustentem o código.
Passando por essa introdução, Dexter parecia durar pouco mais de duas temporadas e logo cair naquele clichê de séries polícias e investigativas, que se fixam na solução de mistérios em cada episódio e os dramas pessoais são deixados de lado. Porém, como o bom sobrevivente que Dexter é, sua linha de enredo vai para outras questões, muito mais humanas do que investigativas. Na série é explorada a mente do Dexter, suas dúvidas, seus medos (se é que ele os tem), seus impasses e principalmente, sua lógica. Uma lógica que nos faz torcer por Morgan e simplesmente adorar o fato de ele ser um serial killer.
Outro ponto muito explorado na série é a questão moral de um código que, em teoria seria "menos pior", por restringir a matança de Dexter a assassinos declarados e que muitas vezes matam por prazer e diversão, mas um paradoxo se instala, visto que não é certo matar alguém. Ou será que se você for evitar que esta pessoa mate outros, torna o assassinato plausível? Pois é, sentimentos conflitantes, dúvidas morais e éticas norteiam todo o desenvolvimento da trama de Dexter e uma série que começa com um personagem num ritmo entorpecido, se encontra atualmente (ao final de sua sétima temporada) com um homem que realmente mudou, evoluiu, repensou e se confundiu, Dexter saiu do papel e é humano, consciente, consistente e, principalmente, relacionável conosco.
Os relacionamentos, não só amorosos, mas também familiares e de trabalho, atingem Dexter de maneira intensa, ele leva tudo muito a sério, principalmente por que não parece entender do que se tratam todas as atitudes sociais e todos os sentimentos que parecem estar envovildos em um relacionamento. Mas em cada temporada o serial killer nos surpreende e se adapta. Seja para sobreviver e não ser pego, seja para se tornar uma pessoa melhor. Bom e Mau aqui, não são conceitos e ideia maniqueístas e traduzidas, são razões, sentimentos e momentos. Ações que podem ser boas ou más, dependendo do motivo e do envolvimento, dependendo do humano e, principalmente, dependendo do que você entende por certo ou errado.
E assim, depois de uma sétima temporada com vários ritmos, descobertas e um final de temporada assustadoramente complexo, os olhos curiosos se voltam para 8ª e última temporada de Dexter. O que esperar de uma série que se reconstroi em cada temporada? Bom, podemos dizer que poucas séries sobrevivem ao longo dos anos, menos ainda são as séries que permanecem realmente boas e interessantes em suas várias temporadas. Dexter é uma dessas séries. É como vinho que se fortalece e fica melhor com o tempo, sendo uma das séries mais sólidas que já passaram na TV.



"Eu sou uma pessoa boa fazendo coisas más; ou uma má pessoa fazendo coisas boas?"

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