O Mito da caverna encontra a Pangéia

Uma das diferenças básicas entre a Disney e a DreamWorks é a própria essência se suas histórias. A Disney é sempre mais delicada, com personagens de postura clássica e mesmo na contemporaneidade e sob grandes influências da Pixar, suas histórias apostam na renovação de valores, em especial da bondade e da família. Já a DreamWorks costuma ir para o lado da comédia inteligente, porém simples, misturada com a ironia. Apesar da segunda também procurar resgatar valores humanos, ela aposta em personagens mais irriquietos e debochados (até), com uma boa dose de agridoce. Isso tudo sem falar das diferenças técnicas e da própria história das duas empresas, só que isso é assunto para outro post. O assunto deste é o inteligente, leve e divertido "Os Croods" da DreamWorks.

"Os Croods" conta a história de uma família da época das cavernas, que sobrevive de caças e do que a natureza oferece. Sobrevive realmente, pois acabam passando dias trancados dentro da caverna que habitam, de forma que o patriarca da família condena tudo que é novo, curioso e que não faça parte do dia-a-dia deles. Grug (o pai) é um cabeça dura nato e não compreende como sua filha Eep pode querer tanto sair para conhecer o mundo. A situação se enrola quando Eep sai a noite, depois de ver uma luz esquisita, achando que se trata de um pedaço do sol. Nessa andança ela encontra Guy, um humano que domina o fogo e que a avisa de uma mudança drástica que acontecerá no mundo. Com certeza eles não estavam preparados para qualquer mudança, ainda mais uma que vai levá-los a sair de sua zona de conforto e aceitar as sugestões de um completo estranho para sobreviver nessa nova e estranha terra.

Com seres misturados, tais como uma tartaruga voadora, um tigre com corpo de gatinho e um peixe lesma, logo entendemos que o foco do filme, nem de longe, é o de retratar um "mundo real" por assim se dizer, e sim fantasiar, imaginar, com toda a licença poética que o cinema tem. O filme tem uma plástica que logo nos remete aos cartoons que vimos na infância, parecendo caricaturas engraçadas de pessoas, sem contar que as cenas de "violência" são à lá coiote e papaléguas, e Tom & Jerry; ou seja, todos se machucam, mas não se machucam de verdade.
Essa característica meio de cartoon, dá ao filme uma leveza bem adorável, que aliado a personagens simples (com o grau certo de complexidade), cativam os espectadores e contém aquele quê essencial de emersão, onde passamos a torcer pelos personagens e querer que eles fiquem bem e se superem, tanto que quando Grug tem uma ideia, nos encantamos com a engenhoca do neandertal e ficamos ansiosos para que ele se salve.Falando em Ideia, esse é um conceito bem tratado no filme, onde nem sempre a força é essencial para resolver as coisas, porém a força, aliada a imaginação, criatividade e sabedoria, podem salvar a sua vida.

Apesar de se passar na época das cavernas, conseguimos nos identificar com os personagens. Eles tem aquele aspecto atemporal, bem típico em animações, que podem se encaixar nas mais diversas eras, já que se centra nos enlaces familiares e nos conflitos que existem entre gerações, opiniões e caráter. Vale ressaltar que mesmo que o mito da caverna e a pangéia se encontrem desenhados nesta animação, só os percebe que tem algum repertório, porque mesmo que as referências fiquem "claras" desde o início do filme, apenas quem já conhece o Mito da Caverna entende as metáforas presentes no enredo. Por isso mesmo, algo que acaba sendo uma marca registrada da DreamWorks se torna ainda mais claro: as piadas direcionadas. Se você notar com cuidado, verá que apesar de se tratar de uma comédia para a família toda, "Os Croods" possui menções que apenas os adultos irão entender e piadas mais leves que agradam todas as idades. 
De fato se trata de uma história que se desenrola de maneira bem simples e não guarda grandes momentos de virada, porém diverte e diverte muito.
Ah sim, fique atento ao Braço e a Sandy, personagens incríveis!

Share:

1 Falas

Mesa de Café da Manhã. Tecnologia do Blogger.