Obsessão digna de Oscar

Até onde se vai quando se está focada em conseguir alguma coisa? Quando não é possível dormir, comer, fazer sexo, conhecer gente nova e...viver se não for para ter/resolver aquela coisa. A sensação parece ser mais ou menos parecida com a de ser pertubada eternamente por um mosquito que faz questão de zunir todo o momento no seu ouvido, procurando te irritar e te lembrar, que ele está ali. O problema é quando o mosquito vai embora. Você fica com o zzzzzzzzz no ouvido ainda irritando e o sentimento de "perda" se mistura com o de vitória. E de repente você se pergunta, o que vai fazer em seguida? E se pergunta: "e agora?". Bom, é assim que o filme "A hora mais escura" termina. E é desse surpreendemente bom filme, que vamos servir um cafézinho agora.
O nome do filme em inglês é uma codificação para 00:30. A hora que o esconderijo de Osama Bin Laden foi invadido.
Muitas esposas de figurões de Hollywood passam anos sob o estigma de serem nada mais do que a esposa de seus maridos. A coisa piora quando o marido morre ou quando se divorciam, pois nem mais esposa se é. É apenas a ex esposa do fulano, ou a viúva do siclano. Verdade que poucas mulheres conseguem se desvencilhar dessa espécie de rótulo e uma que conseguiu fazer isso e de maneira bem forte é Kathryn Bigelow, a primeira mulher a ganhar um Oscar de direção e também, aquela que há muito tempo não responde mais como a "ex mulher de James Cameron".
Só que, ao contrário do que se possa esperar de uma diretora, seus filmes não tem nada de mulherzinha e na verdade mostram sempre um lado forte e destemido da socidade e como esse lado é capaz de aflorar em um momento de perda, desespero e medo. Foi assim que com "Guerra ao terror", Kathryn levou a estatueta para casa.
Porém, Bigelow gosta de filmes pesados. Gosta de histórias que se arrastam por muitos minutos e de grandes explosões. Gosta de misturar ficção com realidade e de fazer os atores sob a sua maestria se suprerarem, ultrapassarem limites impostos por suas próprias crenças para chegar ao momento chave, onde as coisas simplesmente se desenrolam e a própria história se responsabiliza em ser boa.
Mesmo que não goste muito de filmes de guerra e das películas que tendem ao lado ufanista da sociedade norte-americana, resolvi ir assistir "A hora mais escura", deparando-me com a grata surpresa de uma história muito boa e atores excelentes, que realmente dirigem o enredo de maneira digna de Oscar. Para quem não sabe, o filme conta todo o processo de investigação da CIA (que levou 10 anos) até localizar um esconderijo de líderes da Al-Quaeda, que acabou cuminando com a captura e morte de Osama Bin Laden. A história, simplificada desta maneira, parece ser básica e sem muito o que explorar, tornando-se uma narrativa simples de começo, meio e fim. Só que um dos grandes trunfos de "A hora mais escura" é o mesmo de "Guerra ao terror": o quesito homem.
No caso deste filme, o quesito mulher. Jessica Chastain está brilhante no filme. Sua personagem é quem investiga e descobre o esconderijo. Ela também é a reponsável por não deixar a pista se perder e nem cair em esquecimento, sendo completamente obcecada por capturar Osama. Detalhes sobre o passado de sua personagem não são revelados, mas existem motivos para acreditarmos que talvez suas motivações sejam muito mais pessoais que patriotas e talvez por isso, Maya (Jessica Chastain) seja tão querida durante o filme inteiro. Fica claro que a agente interpretada por Jessica é a mais destemida e empanhada em conseguir informações corretas e mesmo assim, para nós é completamente compreensível a vida que ela leva. O que nos deixa muito incomodados é o final em aberto, em que após capturar OBL parece se sentir mais vazia, que realizada. Mas é o que dizem, a guerra muda as pessoas para sempre. 
Com diálogos afiados e cenas de ação muito bem feitas, defendo que o grande "quê" do filme é realmente acompanhar o processo que Maya e seus companheiros da CIA passam até encontrar o esconderijo, pois a investigação é muito bem trabalhada e não fica com cara de seriado de investigação meia boca e sim mais palatável e verídico, e redundantemente, humano.
Apesar dos elogios, "A hora mais escura" tem em uma das suas principais características, seu principal inimigo. Como as cenas se arrastam, existem momentos que você pára e pensa: "Por que essa cena tá aí? Por que essa parte é tão longa e tão lenta?". A primeira parte do filme então, parece se prolongar e andar à passos de cágado. Mas segure-se firme na poltrona e não se deixe vencer pelo tédio. A segunda parte do filme é brilhante e as coisas que se demoraram no começo de repente fazem completo sentido no final e tudo se encaixa perfeitamente.
"A hora mais escura" é definitivamente um filme para ver no cinema e mais que isso, é forte concorrente para levar alguma(s) das 5 estatuetas para que foi indicado para casa. Meu palpite é que concorre principalmente pelas estatuetas de Melhor Atriz (Jessica Chastain) e de roteiro original. Para desbancar essas duas, só se Jennifer Lawrence ganhar por "O lado bom da vida" (que já falamos aqui) ou se Quetin Tarantino levar o de roteiro por "Django Livre". Vamos aguardar...

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