A pesquisa viciada

Sabe como tem gente que fala de ouvido, paladar e ponto de vista viciados? Pois é, nessa vida minha de pesquisa, muito recente diga-se de passagem, percebi que existe pesquisa viciada.

Pois é, toda pesquisa começa com uma ideia, a partir dessa ideia você começa a pensar em possibilidades para abordá-la, pesquisadores que podem te dar um suporte teórico excelente e formas de conduzir a análise para que você consiga chegar em algum lugar. O ideal é quando esse lugar ainda é desconhecido, pois aí que a pesquisa fica interessante. Fica suculenta de se fazer, te conduz de uma forma inebriante e ela mesma te faz encontrar alguma resposta, bom, as vezes nenhuma resposta, mas com certeza algo para dizer e considerações para se pensar.
O esquisito, no entanto, é que nesse pouco tempo em que posso me ver, de fato pesquisando, notei que ao contrário de se deixar levar pela pesquisa, na verdade esses "pesquisadores" já começam a análise sabendo para onde ela tem que ir, conduzem-na em uma rota de visões picotadas, enchendo de colagens de interpretações já batidas, achando que se trata de alguma novidade, ou pior que isso, achando que assim, se constroi conteúdo.
Como disse, não tenho muito tempo assim na pesquisa, nem mesmo me considero uma pesquisadora de fato, mas se tem uma coisa que já aprendi neste tempo é que acrescentar algo na bibliografia, só por acrescentar, é o mesmo que ofender os muitos outros pesquisadores (de fato) que desenvolvem um trabalho sério, coerente e que buscam novas perspectivas em uma visão já conhecida.
Já chega de artigos que tentam provar que nos Contos de Fadas clássicos as mulheres são submissas e abestadas, que não se tem um aprendizado real, pois ensinaria as meninas a desenvolverem complexos de donzelas em apuros; já chega de trabalhos que usam da psicanálise de Bettlheim para afirmar que os contos são importantes para o desenvolvimento infantil; já chega de papers que reduzem os Contos de Fadas a narrativas ultrapassadas e desqualificam as versões de Walt Disney, dizendo que elas "congelariam" o seu formato original de narrativa multável. Já deu! Tem muita coisa repetita, muita ideia compactada, muita fala reduzida a uma análise de fala fácil. Nenhum análise é fácil, se fosse não teria graça se pesquisar.
O tal do congelamento dos Contos de Fada, causado pela Walt Disney Pictures.
Colegas que pesquisam Contos de Fadas, se querem falar sobre a identidade da mulher, não falem de forma anacrônica, as versões clássicas são reflexos de seus momentos sociais e se levar isto em consideração, estes contos não estavam fazendo mais do que a sua obrigação (de educar). Se querem falar sobre psicanálise leiam o livro de Bettelheim inteiro, suas análises são densas e não dá para reduzí-las a pedagogismos simplistas. Se querem falar de Walt Disney conheçam a sua história, suas obras, suas contribuições para o gênero de Contos de Fadas, dizer que o cinema disneyano congelou essas histórias não só é um discurso de crítica fácil, como também não confere, caso contrário não teríamos as várias outras versões que se desmembraram e continuam desmembrando ao redor do mundo.
Ao final, considerem o seguinte: o ponto principal dos Contos de Fada é o ensinamento, é a moral da história, é o que se apreende dessas histórias, não as representações arquétipas de um dado período, ou o desenrolar da trama. Estes se modificam, se adaptam e sobrevivem. Sempre o fizeram e sempre o farão.

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