Especial Bonequinha de Luxo - parte IV

E tem um pouco de teatro, cinema e literatura



Era muito comum nos anos 'dourados' do cinema a adaptação cinematográfica de obras literárias e/ou teatrais. Muitas delas eram a forma encontrada pelos estúdios hollywoodianos para garantia que as salas de cinema estariam lotadas e que as histórias seriam bem recebidas.
Mesmo que com o tempo os roteiros para cinema tenham se diferenciado dos roteiros teatrais e dos romances de várias maneiras, a inspiração ainda continua, de forma que não é incomum vemos filmes que ainda seguem esta tendência.
Agora será que o inverso é possível?
Guardando suas devidas proporções, o West End procura trazer para os palcos grandes blockbusters hollywoodianos, transformando-os em releituras de filmes famosos e fazendo isto de maneira grandiosa, com estréias dignas de tapete vermelho e atores que já tenham convivido com os palcos e com as telas.
Parece que o perigo dessas adaptações esteja na expectativa. Quem vai assistir Dirty Dancing anseia veemente pela cena em que "I've had the time of my life" vai acontecer e ela precisa ser exatamente o que eles esperam, de outra forma saem desacreditando a obra. O mesmo acontece com Grease e começou a acontecer com Bonequinha de Luxo.
Bonequinha de Luxo foi originalmente um livro que virou filme e que do filme, virou peça. Foi um movimento um pouco diferente de algumas das obras, mas que no entanto pareceu fazer sentido. Em uma matéria de 2009 do Guardian sobre a estréia de Bonequinha no Theatre Royal na Inglaterra, o repórter comenta a ansiedade da atriz Anna Friel em interpretar Holly Golightly no teatro, já que a sua personagem tinha ficado eternizada pela interpretação de Audrey Hepburn.
Estabelecer novas expressões e novos trajeitos na personagem foi praticamente impossível, já que Audrey teria batizado a personagem.

Vale aqui lembrar, que Bonequinha de Luxo já tinha sido adaptada uma vez para a Broadway, mas acabou não durando, justamente pela referência fortíssima de Audrey Hepburn. 
Mas foi dito praticamente impossível e não de fato impossível.
Anna tinha ao seu lado um grande diretor: Mathias. Este que foi taxativo em dizer: “Precisamos refazer no palco algo que teve tanto sucesso no cinema? Meu primeiro instinto foi ‘não, não precisamos!’ Por melhor que tenha sido o filme, há muitos elementos do romance que são diferentes”. Então eis que surge a idéia. Um mashup. Algo que remetesse tanto ao cinema, quanto ao livro, mas que não fosse exatamente igual nem a um, nem a outro.
Bom, então como fazer este tal de mashup?Simples: mistura-se uma Holly loira, cantando "Moon River"e que apareceria nua. Holly seria mais sexy que Audrey foi no filme, mas também seria menos ousada que a loira do livro. Paul seria realmente gay e tudo isso seria uma mistura contemporânea e retrô.
O resultado foram 4 meses de críticas massivas, tanto positivas, daqueles que viam Anna como uma nova e deslumbrante Holly; quanto negativas, daqueles que enxergavam a peça como uma clara tentativa frustrada de ser original e da atuação de Anna como fraca e improvável de atingir o espírito de carisma e selvageria que a personagem originalmente teria.
Fato é que a coragem não faltou nestes que investiram muito na hora de recriar Holly e as suas mais sinceras características. Anna não quis ser Audrey em nenhum momento, ela quis ser Holly e fazer o público ver Holly de uma maneira diferente, não necessariamente melhor ou pior, do que a retratada por Audrey em 1961. Então talvez esta tenha sido uma das grandes contribuições de Mathias e Anna, ultrapassar aquela fina linha que tira algumas pessoas dos teatros, picotando elementos tradicionais e indo além das expectativas preconcebidas de uma audiência de visão viciada.

Afinal de contas, esta não é a essencia original de Holly?

Fonte de inspiração do Post: O Patativa por Bernardo Schmidt

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