Especial Bonequinha de Luxo - Parte III

Dar uma festa para filmar uma festa

"Vocês fazem parte da vida de Holly. Não é uma festa doméstica, é uma típica festa Golightly, então não deixem que nada surpreenda vocês. Aconteça o que acontecer, não saiam do seu personagem e fiquem em cena". (Blake para o elenco de figuração antes de começarem a gravar a cena da festa. Citação tirada do livro 5ª Avenida, 5 da manhã de Sam Wasson)



No roteiro de Axelrood constava uma festa, mas em nenhum momento esta festa era descrita com detalhes, então Blake teve uma ideia. A ideia era fazer algo que ainda não tinha sido feito (nem mesmo parecido) no cinema: dar uma festa de verdade, para que se filmasse uma festa.
Figurantes foram contratados, comidas foram de fato servidas, bebidas foram distribuidas e 20 mil doláres foram gastos em sete dias de festa. Todo o desenho da cena foi criado para que parecesse uma baita festa, cheia de loucura, bebida e claro: o melhor estilo Bonequinha de Luxo.
Outra novidade foi usar, ao invés de playback quando a cena estivesse montada, música no momento da gravação, para que ela ficasse inserida na cena corretamente e para que os figurantes pudessem agir como se, de fato estivessem em uma festa, se divertindo e dançando.
Assim, espalhados por todos os cantos, os figurantes esperavam instruções para saber o que deveriam saber. Sam Wasson conta que o diretor criava as cenas na hora. Olhava para os figurantes e de repente parecia ter um insight, depois ia até a sua fonte de inspiração e lhe dava algumas orientações. A maioria das cenas da festa nasceram assim, como o telefone na mala, Holly ateando fogo no chapeu de sua convidada e o beijo de Martin Balssam com uma desconhecida dentro de uma banheira.
"Blake estava dando uma festa para filmar uma festa, de forma que do casual - ou, pode-se dizer, da realidade - ele podia selecionar detalhes do leque de pequenas histórias que estavam acontecendo naturalmnte a sua volta. "(p. 182)
Uma das figurantes, Joyce Meadows, conta que foi surpreendida com um beliscão na bunda. A cena não tinha sido combinada com ela, apenas com George Peppard, então o grito alto e a fala "Isso foi realmente necessário" não estavam no combinado. Este depoimento mostra que Blake estava testando coisas, inserido novas ideias em uma cena que poderia ser simplesmente coreografada. A festa filmada foi então trechos de misturas entre o que tinha sido combinado e o que tinha sido surpreendentemente bom. A cena da festa foi tão emblemática, que no ano seguinte o filme "Um convidado bem trapalhão" foi lançado e adivinhe só, o filme foi todo gravado a partir de uma 'festa real'.
O que poucas pessoas percebem, no entanto, é o alto teor crítico que a cena possui. ela foi toda desenhada para que mostrasse que as coisas não são exatamente o que parecem ser. "Cada efeito - do tapa-olho, passando pelo telefone na mala, o casal no choveiro - era propositalmente tirado do tema principal de Holly: (...) então mais do que piadas, as gags da festa envolvem todo mundo na charada, caçoando de quem é moderno de mais, bêbado demais ou elegantemente blasé demais para notar o que é óbvio para Paul Varjak: que aqueles malucos pdem ser glamurosos, mas nem fazem ideia disso. É a fachada cosmpolita reduzida a seu devido tamanho. (...)Afinal de contas, como diz O.J Berman, agente de Holly, 'ela é uma impostora, mas é uma impostora de verdade!'. " (ps. 187 e 188)
Estes elementos tão interessantes e que poucas pessoas se quer sabem, dão o tom de comédia a trama, mas principalmente, são capazes de dar um tom de bom gosto, transformando a história de Holly em uma comédia sofisticada, assim como seu vestidinho preto e sua intérprete, Audrey Hepburn.

Veja a cena completa abaixo. O único vídeo que eu achei 'inteiro' na verdade está dividido em 2, mas assitam é bem interessante para ver tudo o que foi dito neste post.


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