Paris quando relembra

Ah o passado!
Quem nunca se pegou pensando em como seria viver em um período passado, onde não existiam tantas tecnologias, ou em um período em que as artes estavam se desenvolvendo, se descobrindo?! Quem nunca se pegou imaginando, também, viver em outra cidade. Outra realidade? Enxergar tudo dentro de outras expectativas.
A partir de um começo turístico e ao mesmo tempo apaixonante, mostrando a cidade de Paris, "Meia Noite em Paris" de Woody Allen, nos convida a agir como um turista apaixonado e ávido por conhecer cada beco e paralelepípedo da Cidade Luz. Paris anoitecendo, Paris acendendo, Paris chovendo e Paris enfervescendo. Estas são as "Parises" que mais do que simplesmente cenários, são personagens desta produção Woodyana.
E é neste cenário participante, que conhecemos Gil, um roteirista Hollywoodiano tentando encontrar o seu 'eu criativo', capaz de escrever um romance e abandonar as megaproduções cinematográficas. Gil, representado por Owen Wilson é noivo de Inez, personagem de Rachel McAdams, mas fica evidente para todos os espectadores que a paixão verdadeira de Gil é Paris. O que a cidade é, mas principalmente o que ela representou. Especialmente nos anos 20.
Gil tem uma verdadeira fixação pela cidade, pela nostalgia e pelos grandes nomes da cultura daqueles anos 20 e bem ao estilo Woodyano seu personagem é um incompreendido e um insatisfeito com a sua própria realidade, então o que torna o persoangem interessante é a vontade dele de se desvencilhar dos passeios pré-fabricados e do pseudo-inteligente e extremamente petulante Paul, colega de sua noiva na faculdade.
Paul parece ser a visão daquela crença elitista e high brow que parece sempre querer saber mais que os outros e ainda recebe ibope das 'mentes' vazias e céticas, que desconsideram experiências e novas situações como as molas de um conhecimento verdadeiro. O contraponto formado por Paul e Gil é algo que, mesmo sutil, ganha nossa atenção, principalmente por que da forma como Paul é apresentado a nós, Gil parece o melhor de todos os mocinhos, mesmo que ele não seja lá tão brilhante.
Assim a história se desenrola e em uma noite, depois de uma bebedeira, Gil acaba se aventurando em uma viagem no tempo, em que ele tem a oportunidade de conhecer aqueles tais mestres dos anos 20, como Ernest Hemingway, Pablo Picasso e Jean Cocteau. À princípio tudo parece um sonho (afinal, por que não poderia ser?!), mas depois Gil não mais questiona aquela realidade, apenas tira proveito dela.
Para nós, as personagens dos anos 20 são apresentadas como espirituosas, intelectuais e boêmias. E por serem mais divertidas e cativantes do que as personagens do século XXI, acabamos sendo apresentados para um possível speen (palavra que eu fui apresentada recentemente, e que basicamente significa uma exarcebada exaltação ao passado). Digo possível, pois Adriana aparece na história.

A personagem de Marion Cotillard tem as mesmas inquietações de Gil. Ela não consegue se enxergar inserida nesse período e deseja ter nascido na Belle Époque parisiense. Como uma espécie de reflexo, Gil enxerga suas próprias ânsias e desejos nostálgicos em Adriana e por fim compreende que nunca se sentirá totalmente satisfeito com o presente, simplesmente por ser o presente.
O filme tem aquele tipo de narrativa simples, sem muitos picos, mas muitas metáforas e dúbias interpretações. Talvez o grande barato dele, seja essa possibilidade de ser simples e complexo ao mesmo tempo, sendo que a complexidade não deve ser o ponto de separar as "alta" e "baixa" artes e sim de aproximar estas, que hoje não são mais conceituadas desta forma. São apenas, artes, como o passear pela cidade de Paris na chuva.
  

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