De Queridinho à Príncipe Negro




Uma das figuras mais emblemáticas no séc XX e talvez de imagem mais dúbia é Walter Elias Disney, ou Walt Disney.
Em poucos anos a sua imagem mudou diversas vezes, sendo celebridade local, queridinho da américa, empreendedor do futuro, gênio da animação, gênio do cinema, passando por embaixador da amizade, Disney War, Príncipe Negro americano, até chegar em mito, supostamente congelado para a posterioridade.
A verdade é que a figura do homem Disney se misturou tanto com o cineasta de animação e com o empreendedor do entretenimento, que ao fim de sua vida Walt era 8-80. Existiam pessoas que tinham verdadeira idolatria pelo homem/mito e o oposto era bem real, também.
Lendo o livro "Walt Disney: O triunfo da imaginação americana" de Neal Gabler, percebemos que muito da história do homem simples e provençal que conseguiu se tornar multimilionário foi transformado em boatos menores que pretendiam reconfigurar e até mesmo desconfigurar a imagem deste homem, transformando-o em símbolo das grandes coorporações e no pensamento puro capitalista.
Bom, o biógrafo não deixa de ressaltar que de fato de que Walt queria que a Disney, ou o mundo mágico que ele criou se tornasse muito mais que uma válvula de escape para a população sonhadora. Também queria que pudessem sustentar ele a sua família e empregados.
Sua mitificação como figura importante e, como já disse, emblemática teve muita influência a partir da sua personalidade carismática, ao mesmo tempo que isolada; e seu gênio doce, ao mesmo tempo que forte. Disney era este homem versátil. E conseguiu modificar a cultura norte-americana de formas que, talvez, apenas Chaplin tenha conseguido anteriormente.
"O crítico Robert Hughes atribuiu à Disney a invenção da própria arte pop, não apenas por seu olhar, que deixou como herança, mas também pela convergência da chamada arte erundita com a arte 'popular' e 'menos refinada'." (pag. 8*), Fantasia é um belo exemplo.
A Disneyficação urbana também foi causada pelas novas convenções deste brilhante homem, que reconfigurou completamnte a forma de recreação norte-americana, quando criou um parque temático tão fantasioso como o Disneyland (California) e o complexo Disneyworld (Flórida).
Mas como será que Disney passou de queridinho, a príncipe negro em menos de duas décadas?!
Neil Gabler opina, e eu admito que nunca tinha pensado desta forma, que por ser um homem naturalmente versátil, Dsney conseguia ter atitudes dúbias e simultaneas; significando que, ao mesmo tempo que Walt pensava em uma cidade totalmente tecnológica, que acompanhasse todos os avanços e usasse-os para viver melhor, ele também era extremamente ligado ao passado de seu país. Era nacionalista até 'dizer chega!' e transportava muito deste sentimento para suas produções.
"Um estudioso atribuiu a popularidade de Disney ao fato de ele ter cruzado a distância entre o 'populismo sentimental' da Grande Depressão, com sua crítica contundente à ordem social dominante, e o 'sentimentalismo libertário' da era da Guerra Fria, que veio para aceitar a ordem social. (...) Por outro lado John Gardner situa o seu trabalho em uma teologia cristã levemente secularizada de esperança e bondade. No ponto de vista de Gardner, Disney essencialmente, reinterpretou o cristianismo para a cultura de massa." (pag. 11)
De fato existem todos estes elementos no trabalho de Walt, e sua enorme popularidade é resultado da soma de coisas que parecem tão diferentes entre si e até tendências contraditórias, e transformá-los em um desenho apreciável e 'simples'.
Nos anos 20/30 Disney remodelou a arte da animação quando colocou som e cor nestes desenhos, e quando criou Mickey Mouse. Tornou-se uma celebridade da noite para o dia, com a fama de ser capaz de trazer o melhor das pessoas à tona, mas no final ele era amplamente identificado como degradação cultural e quase ninguem mais o levava a sério, pois diziam que a sua visão disneyana do mundo desfigurava clássicos e os tornava estáticos e infantis.
Uma das principais acusações feitas pelos intelectuais (e que ainda é feita por grande parte dos estudiosos de Contos de Fadas, que eu já li) é a de que ele "usurpou a imaginação individual e a substituiu por uma imaginação coletiva, homogeneizada, e promoveu o conformismo, a ponto das fronteiras da fantasia estarem fechadas." (pag. 15)
Mas até que ponto Disney era este exemplo primário do imperialismo cultural norte-americano?
É muito simples misturar o homem ao estúdio. Reduzí-lo e à sua história nas letras caricaturadas que viraram o símbolo da empresa. Será que é possível desmitificar este mito? Trazer a tona as diferenças existentes entre a commodity (construida em cima dele) e o homem?
Estas dúvidas permanecem, e, enquanto eu vou lendo um dos melhores presentes que eu já recebi, pretendo tentar respondê-las.
Ressalto logo de cara, que talvez o grande triunfo dele, foi a capacidade de mostrar, não só para os seus conterrâneos, para o mundo inteiro, como a imaginação pode vencer, pode tornar alguém mais forte e pode, finalmente, fazer sonhos tornarem-se realidade.

*Todas as citações foram tiradas do livro "Walt Disney: O triunfo da imaginação americana" de Neal Gabler.

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