Paradoxo Romântico

Falar de amor no cinema é a mesma coisa que falar de amor em romances e poemas: esperado.
Desvendar este sentimento que para a maioria das pessoas continuar sendo inexplicável requer muito mais do que uma simples interpretação de uma estranha conexão entre duas pessoas que se intensifica ao longo da história, simplesmente por que é para acontecer.
Para entendermos o amor ou mesmo sentimos que existe um amor ali naquela história, precisamos sentir que a conexão entre eles é enriquecida com detalhes, com pequenos gestos, com a sedução e com o encanto sendo cultivado, por que é assim que nos entendemos com estes personagens. É assim que nos enxergamos nestas histórias.
Filmes que falam de amor de maneira mais real, são aqueles que conseguem atingir a essência do que as pessoas de fora da tela em suas vidas "chatas" e "comuns" vivem em suas vidas amorosas. Encontros, cortejos, seduções, corações quebrados, expectativas, frio na barriga, vontade de estar próximo e principalmente a chata e cruel rotina.
Esta semana tomei coragem para alugar um filme que tinha certeza que ia me fazer chorar, justamente pelo nome do mesmo "Antes do amanhecer". Aluguei (acho que ainda sou uma das únicas pessoas no mundo que ainda alugam filmes ao invés de baixar) e me deparei com esta espécie de obra de arte cinematográfica.
Não, o filme não tem uma história incrível. Na verdade parecia que seria mais um daqueles filmes em que jovens apaixonam-se perdidamente e simplesmente PRECISAM ficar juntos, mas fui surpreendida com uma série de pequenos detalhes e sentimentos que vão surgindo ao longo do mesmo, que o começo parece apenas um pequeno borrão de algo que parecia ser comum.
A história gira em torno do encontro de Jesse e Celine. Os dois personagens se encontram em um trem rumo a Paris com uma parada em Viena, onde Jesse deve descer para pegar um avião e voltar para os EUA. Celine está voltando para Paris, onde estuda Ciências Políticas em Sorbonne.
Os dois personagens são obviamente idealistas, sedutores e muito sonhadores, porem possuem aquele paradoxo pós-moderno de serem também bastante céticos e realistas. De cara eles se dão bem e Jesse convida Celine para passarem um dia em Viena, antes que cada um tenha que tomar seu rumo.
A partir daí a história se desenrola de maneira inteligente e nem um pouco surreal. Os dois passeiam pela cidade trocando diálogos extremamente longos de uma tomada só -o que nos faz admirar a ligação que os dois atores criaram no filme. -e por mais céticos que sejamos, nos encantamos e aprendemos a conhecer cada pequeno detalhe da vida destes dois jovens amantes.
A beleza do filme está aí, nesta coisa que parece ser esquecida ou deixada de lado nestes blockbusters superproduzidos em que milhões são gastos em uma explosão. A beleza deste filme está no Roteiro!
Seus diálogos são os pontos mais importantes da história, uma vez que são neste momentos que temos uma idéia de quem são Jesse e Celine, e como eles conseguiram se apaixonar um pelo outro. Seus sonhos, crenças, desejos, ânsias e expectativas são desenhados para nós de forma que nos sentimos personagens desta história, velhos amigos destes dois e mais ainda; nos identificamos com eles.
Somos mesmo estes seres paradoxais que conseguem cair de amores e suspirar por aquele que amamos, ao mesmo tempo em que vivemos no dia-a-dia, em que a rotina se impõe, as pessoas mudam e os amores podem esmorecer...e o encantamento maior do filme talvez more, justamente neste romantismo-realista e bem dosado.
"Antes do Amanhecer" é um daqueles filmes tão sutis que somente com o roteiro que possue não ultrapassou a fina linha entre o emocionante e o clichê.
Ao final do filme eles se despedem sem trocar qualquer contato, mas com a promessa de se econtrarem naquela mesma plataforma em seis meses. O final em aberto é como se fosse um teste (como descobrimos na sequência "Antes do entardecer"), "os românticos acreditam que eles se reencontram, mas os céticos acreditam que nada aconteceu. E claro, existe aqueles até hoje com dúvidas".
Mas esta dúvida pode muito bem ser tirada. Assistindo a continuação em seguida...

Mais sobre o filme: Cinema em debate

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