Historicamente: a Verdade sobre...

O casamento.

A união para constituição familiar é, sobretudo, uma característica social, uma inter-relação dos homens, sendo que adquire um formato compatível com os anseios de cada época e com o resto da sociedade. Mas também é apontada como uma realidade biológica (a necessidade de procriar para ter-se descendentes).
É relativamente delicado tocar no assunto: relacionamento. Não por que ele é complexo ou cheio de imperfeições, mas por que quando se pergunta a alguém porque o relacionamento passado terminou, a resposta mais comum que se escutará é a de que o parceiro(a) foi infiel
Segundo o que acontecia, desde a Grécia Antiga, o homem seria o grande vilão, capaz de ter até centenas de parceiras e ainda sendo menos discreto quanto deveria. Porem o que tem que se fazer claro é que estamos falando de contextos sociais, e compara-los com contextos diferentes é um erro etnocêntrico, já que está se tomando um determinado tipo como base. Mesmo assim, olhar para esse contexto social passado a fim de entender como ele influenciou no que acontece hoje, pode ser muito útil.
O primeiro relato de monogamia que se tem na História remete ao antigo Egito, cerca de 900 a.C. Segundo estudos, naquela civilização as uniões eram instituições formais, como um contrato onde já se dava o direito de cada parceiro naquela relação.
Ah, mas não se engane, mesmo com o contrato, a poligamia já existia, mas só era aceita para o Faraó. O semideus poderia escolher quantos mulheres quisesse como as concubinas (que era uma honra para as famílias da moças), quando as concubinas engravidavam, elas se tornavam Esposas Secundárias, mas nenhuma delas substituiria, ou teria a mesma função que a Grande Mulher do Rei (essa, era cortada a cabeça – ou pior - se tivesse relacionamento com outro homem).
Na Grécia Antiga, o macho era o centro de tudo, ele poderia sair, poderia se relacionar com quantas mulheres quisesse que não seria malvisto (inclusive era uma pratica socialmente aceitável). A moça, em contra partida tinha que permanecer sob o véu paternal até que sua mão fosse prometida a algum homem, e era quando seu pai arranjava um noivado (sim, ela não comparecia ao próprio noivado) e ela passava a ser protegida pelo esposo. Em uma de suas cidades-estado, Esparta, era tão comum a pratica da poligamia, que os homens poderiam até mesmo dividir uma mesma mulher (mas o contrario não poderia).
Segundo historiadores, o casamento com uma cerimônia que lembra remotamente a dos dias atuais, vem da Roma Antiga, mas não se iluda ao achar que o casamento tinha algum fundo realmente sentimental. Na verdade era mais um contrato traçado entre o noivo e a sua família, com a família da noiva para a manutenção e preservação dos dois sangues.
No mais, seria, talvez, atrevimento, argumentar que o Homem inventou a monogamia apenas para a mulher, e até mesmo Marx e Engels, não obra “A ideologia alemã” (DELEURE apud MARX, ENGELS, 2007) afirmam que os gregos proclamavam abertamente que os únicos objetivos da monogamia eram a de se tornar um homem de família e ter filhos que fossem de fato seus, então o casamento não passava de uma obrigação social.
Depois que Roma passou a ser Cristã, algumas coisas mudaram e a Igreja começava a aparecer como a mãe de uniões, uniões como o casamento. No artigo intitulado Vos declaro marido e mulher, publicado pela revista Super Interessante (05/1996), os autores lembram que, ao reconhecer o significado político do casamento, a Igreja instituiu, em meados do século IX, a cerimônia religiosa, a qual não vigorou de imediato. Até então ela não admitia que no casamento pudesse haver um bem positivo ou que o afeto entre o marido e a mulher fosse belo e desejável. Resultado: o casamento era visto como algo repugnante e poluído, definindo até mesmo como superior quem optava por não casar e entrar no clero.
A verdade é que com a Queda do Império Romano e as Invasões Bárbaras, a Europa (que ainda não era Europa) foi controlada quase que completamente pela Igreja. Mas ela não estava presente como disseminadora de ideais e beleza, mas como controladora da vida social, tanto dos mais nobres aos mais camponeses.
Mesmo assim, como uma sociedade essencialmente machista, as mulheres eram proibidas de terem relacionamentos fora do casamento, e eram chamadas de bruxas por causa disso, correndo o risco de serem queimadas, enforcadas ou esquartejadas vivas, mas com o passar dos tempos a Igreja passou a proibir o adultério até mesmo para homens, alegando que faria parte dos dez mandamentos de Moisés e que estaria na Bíblia (que nessa época somente os clérigos tinham acesso).
Quase ao fim da Idade Média, principalmente na Espanha e em Portugal, surgiam os Trovadores, homens que viajavam de lugar a lugar, cantando suas magoas por amar uma mulher nobre que era casada, e por esse amor não se realizar. É considerada a primeira escola literária e talvez, também, seja a primeira visão do amor romântico, enaltecedor, que vê a mulher como um ser divino e imaculado, inalcançável, já que até então, a mulher nada mais era que um instrumento de prazer e a “carregadora” de bebês.
Na Idade Moderna, a maior característica do casamento era o seu fundo de interesse político. O casamento celava o acordo e muitas vezes dava vazão a "traição" entre os casais pela nao existencia do amor entre eles.
É na Inglaterra da Idade Moderna que conhecemos a História de amor que deu origem a todas as outras histórias de amor depois dela: de William Shakespeare- Romeu e Julieta.
Vimos que historicamente, o papel do casamento como eixo da estabilidade social era mais importante do que o amor entre os casais, e as funções do casamento voltavam-se para a criação dos filhos, a transmissão de valores, servindo como núcleo econômico e organizador das tarefas diárias da vida. Também, que o casamento era usado como um contrato político.
Desde a Idade Media, quando trair passou a ser mal visto pela Igreja, tudo começou a ser feito às escondidas. Está certo que ninguém era tão discreto e como os Feudos eram relativamente pequenos, não era de se estranhar que logo todos soubessem. Então é interessante se pensar que, não era que eles não soubessem que havia infidelidade, mas que eles fingissem que não soubessem.
Talvez a influência de mudança de pensamento sobre o que era certo e o que era errado em um relacionamento, venha muito da noção de romance que foi construído, tal como influencia da Igreja, que através da passagem de Adão e Eva passa a alegar que existiria uma mulher ideal para cada homem e vice-e-versa.
Então, o que foi herdado em grande escala das Idades Média e Moderna, foi a hipocrisia. A hipocrisia em acreditar que para ser monogâmico não se pode ser poligâmico, nem mesmo em pensamento. A hipocrisia em acreditar que se há amor de verdade não há traição. A hipocrisia em dizer que nunca traiu e que nunca trairá. E a hipocrisia em fingir que se acredita que o parceiro nunca traiu. E mais do que tudo isso, a hipocrisia em tentar se convencer de que ao se casar, o amor exclusivo está garantido.
Conclui-se ao final de tudo, que a Monogamia tem alicerces muito frágeis, tais como motivos muito ralos para sua existência. Mesmo assim, é evidente que na sociedade contemporânea todos querem um amor de verdade, a pessoa só para si, essa pessoa mística, quase irreal que vai amar e ser fiel somente a ela. Uma fantasia à lá Romeu e Julieta.
Vê-se que a Poligamia, apesar de ser hipocritamente não aceita é muito mais comum de se encontrar do que a Monogamia perfeita e por isso não se deve simplesmente rotular uma pessoa como fiel ou infiel.
Como se lida com esse fato que depende de cada individuo, mas sejamos sinceros, o que seria das novelas mexicanas sem o triangulo amoroso, e os filmes românticos, e as novelas brasileiras se não existisse esse debate, Monogamia/Poligamia?
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-->Esse texto são partes do que eu escrevi para o meu artigo científico, sobre monogamia e poligamia nas Idades Média e Moderna. Espero que tenham gostado. Adoraria comentários, se possível.

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